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11 de nov de 2009

A Vontade do Falecido - Stanislaw Ponte Preta

Stanislaw Ponte Preta. Seu Irineu Boaventura não era tão bem-aventurado assim. Tinha lá um dinheirinho que guardava embaixo do colchão.




Afinal, ele não gostava de bancos, nem comprava um terreno, porque achava que seu sobrinho Altamirando se instalaria nele sem a menor cerimônia. Assim, a erva dele era verdinha, verdinha. Traduzindo: dinheiro vivo!

Só que andava com aquele jeito cadavérico que a vizinhança achou que já ia morrer. Por isso, o apelidaram de "Pé-na-Cova".

A família naquela ânsia diabólica de herdar o dinheiro dele. Embora ninguém comentasse. Só Altamirando, mais mau-caráter que o resto da família, depois de uma tosse do tio, lhe perguntou:
- Titio, quando o senhor se for, isto é, quando o senhor passar desta para a melhor, pra quem vai ficar seu dinheiro?

O velho mudou de cor, de raiva, depois respondeu:
- Na hora você vai saber, seu cretino!

Só que, alguns dias depois, ele morreu.

- Bota titio na sala de visita - disse Altamirando.

Botaram seu Irineu na sala de visitas. Afinal, o melhor espaço da casa.

Chegaram parentes de longe, todos interessados no dinheiro do morto.

Antes do enterro, contaram o dinheiro, sessenta milhões de cruzeiros intactos.

- O velho tinha menos dinheiro do que eu pensava - disse bem alto o sobrinho Altamirando. E ainda acrescentou: - Vai ver que gastou com mulher.

Se gastou ou não, ninguém soube. O que soube é de uma carta que o falecido deixou, registrada em cartório e tudo. Nela ele dizia que quando morresse o dinheiro seria enterrado com ele. Não deixaria o que ganhou com o suor do rosto a parente vagabundo nenhum.

A parentada chorou. Chorou de verdade. Não por causa do morto, mas do dinheiro que iria com ele. Todavia, ninguém ousou desfazer a vontade do falecido. E, na hora de colocar o dinheiro no caixão, a choradeira aumentou.

Só que, antes de fechar o caixão, Altamirando gritou:
- Pera aí!

Ante olhares curiosos, tirou os sessenta milhões de dentro. Fez um cheque do mesmo valor e o colocou no caixão.
- Se titio precisar do dinheiro mais tarde, desconta no banco - disse Altamirando.

Fonte:
Stanislaw Ponte Preta, Dois amigos e um chato, Editora Moderna, 1986.

Imagem apenas ilustrativa, do website Imgur.


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